Testemunho

Minha história começa quando fui adotada com 16 dias, segundo me contam. Sei pouquíssimo sobre minha mãe, apenas que ela era uma babá, desconheço suas razões para me entregar para outra família.


É curioso como a criança tem um elo com a mãe tão forte. Mesmo sem conhecê-la e tendo a sorte de ter uma boa família eu sempre me questionei o porquê de ter sido “abandonada”.


A adoção não é fácil para uma criança, não é simples não ter sido desejado e não ser amado por seus pais, muito menos desconhecer sua própria história, mas o fato é que nada me faltou e pude crescer perto de pessoas muito especiais.


Tudo isso mexeu muito com minha cabeça por muitos anos. Fui uma criança reflexiva e observadora por consequencia disto. No fundo o que sentimos é um buraco, uma lacuna na vida, a força de uma família é muito grande.


Minha nova família passou por diversos problemas nos meus primeiros anos de vida. Meu pai adotivo, que era um querido comigo, nunca vou esquecê-lo, por ignorância e fraquezas mantinha relacionamentos extraconjugais e me recordo até hoje o dia em que ele fez as malas para sair de casa, era muito pequena mas é nítido na minha mente ele e minha mãe tendo uma última conversa, malas, lágrimas, minhas e da minha mãe.


Até então nossa casa era mantida com tudo, tínhamos certo conforto, morávamos num bairro muito bom na zona sul do Rio de Janeiro, minhas irmãs eram quase adultas e estudavam, uma já estava cursando a univerdade, e tudo isso mudou com a saída dele. Mais do que perdermos a estabilidade de bens, nossas almas passaram por profundos desequilíbrios, todos nós.


Hoje em dia mais do que nunca, com visão espiritual das coisas, entendo que o lugar de um pai é com sua família e amando a sua esposa, é o melhor que ele pode fazer por seus filhos, se não tiver esta capacidade seria maravilhoso que o homem jamais desejasse um casamento, seria honesto com ele e pessoas seriam poupadas.


Depois que meu pai foi viver com sua nova paixão, ele passou por grandes crises finaceiras e imagino que tenha vivido os piores anos de sua vida. Ele não estava escolhendo alguém para somar em sua vida. O fim disto foi o meu pai dando um tiro em sua amante e um outro na própria cabeça. Ela não morreu.


Estes fatos marcaram a minha história até meus quatro para cinco anos e a história de todos a minha volta. Nossas vidas são também parte de outras vidas e episódios, não é assim?


Nos mudamos para outro bairro e recomeçamos nova vida. Ali tive uma infância muito saudável, minha mãe foi uma fortaleza, pois por mais que isto a tenha feito sofrer e tenha deixado suas cicatrizes nossa vida continuou.


O único problema é que rejeição é uma droga. Eu vivi me sentindo menos amada que minhas irmãs. Já adulta buscando formas de entender recorri a leituras e conselhos de profissionais, também uma palestra com uma psicóloga cristã que se chama Edméia Williams, sobre a vida uterina e que ainda quando somos feto nossa psique e nossa personalidade já guardam nossas experiências e quando são muito negativas elas distorcem os conceitos que fazemos sobre a vida, sobre o amor, sobre convivermos.


Estas situações pesaram sobre mim durante muitos anos, são simples, na verdade podem acontecer com qualquer pessoa, mas existem forças espirituais que se aproveitam dos fatos passados para nos colocar numa redoma e não nos sentirmos amados, ou que somos uns desafortunados e infelizes, ou que atraímos dores mais do que qualquer outro ser do planeta. A cabeça humana fica cheia de fragilidades se não for bem conduzida.


E de fato minha convivência com meus familiares teve seus maus momentos, como em todas as casas de adotados ou não. Mas eu sempre senti que era só comigo e isso nos faz nos vitimizarmos e nos escondermos. Nos faz perdermos o crédito em nós e o das pessoas em nós, porque vamos nos anulando em meio aos pensamentos repetidos nos fazendo retornar constantemente nas mesmas feridas e construindo em nós mágoas profundas.


Até eu conseguir entender que eu precisava me amar e que não conseguia por esperar apenas o amor dos outros eu sofri muito, me via extremamente complexada, feia, sem alguém que me olhasse e me enxergasse ali no meio dos meus devaneios. Mas tudo isso faz parte da batalha espiritual de forças malignas que operam neste mundo destruindo a consciência boa das pessoas. Há todo um sistema sutil atuando nas famílias, sobretudo, por serem a célula da sociedade onde se originam problemas ou bençãos que permanecerão acompanhando a história e as personalidades das pessoas para sempre. Ainda assim, se tivermos ajuda de Deus podemos enxergar as coisas de maneira clara e transformarmos qualquer caos em felicidade e amadurecimento.


Eu cresci num lar católico e espírita, frequentei aulas de catecismo, missas, escolas de freiras, e também a centros espíritas kardecistas. Meu pai era umbandista e toda sua família kardecista e a irmã do meu pai responsável por minha adoção, por ser minha mãe biológica babá de sua filha, era médium e fazia sessões em sua casa.


Cresci neste universo mas tinha muito medo das imagens que tinham na minha casa, pesadelos com São Jorge querendo me matar, detestava ir nos centros porque os espíritos que encarnavam me davam horror.


Muito questionadora eu lia a bíblia recomendada por minha avó materna, católica, pessoa maravilhosa e um exemplo de mulher. Por ler eu achava que o catolicismo não tinha nada a ver com as escrituras e que por certo tudo foi escrito por homens, porque não funcionava nada.


Aos dez pedi para minha mãe para eu não ter que acabar o catecismo pois eu não queria ser católica. Minha mãe concordou, graças a Deus tive uma excelente educação, de respeito à minha individualidade.


Alguns anos depois li livros do Paulo Coelho e fiquei entusiasmada com o esoterismo e a magia, mas apenas como admiradora, ainda era bem nova, tinha uns treze.


Li muitos livros kardecistas, li o que podia sobre o budismo e era o que mais fazia sentido para mim, achava lindo todo a busca pelo desapego e por meditação e equilíbrio. Uma vizinha me deu livros sobre Yoga e eu também gostei bastante e passei a fazer algumas posturas e li um pouco sobre a filosofia.


Lá pelos meus 17 iniciei minhas experiências pessoais e a me entender esotérica e pessoa sem religião definida, qualquer uma poderia me inspirar e isso bastava, desde que sempre pudesse encontrar algo que aliviasse meu desejo de conhecer o desconhecido. Detestava rótulos limitadores e ainda sou assim. Comprei um tarô, passei a estudá-lo e a fazer jogos. Ao mesmo tempo me aventurei pela astrologia e ficava horas em livrarias estudando mapas e posições astrológicas. Conheci uma amiga parecida comigo tanto para aventuras da mocidade quanto para ter uma mãe professora de magia com quem eu adorava conversar, ela pertencia a uma ordem teosófica de grau razoavelmente alto. Um dia ela viu algo que escrevi num livro em latim, que eu nem sabia que se tratava de uma psicografia, muito menos eu sabia que o que escrevi estava em latim e que aquilo possuía significado espiritual. Isto fez com ela me convidasse para a ordem, o que na época não aceitei, me limitei a frequentar ritos de magia com o grupo dela e isso me divertia muito.


Anos se passaram, com uns vinte anos fui trabalhar num salão de beleza onde algumas pessoas cristãs conviviam comigo. Por anos fui alvo de orações pois eu era a pessoa mais distante da fé cristã. Com “pomanders” de Aura Soma eu fazia uma “ginástica” astral de desbloqueio de chakras e levava outras pessoas a fazerem o mesmo, sempre jogando tarô ali e interpretando mapas. Eu a esta altura já não lia mais bíblia e a julgava um livro sem sentido, para pessoas ignorantes ou que não refletiam, ou que eram “vacas de presépio”, como eu costumava dizer. Se alguém tentasse me falar de religião perdia o tempo, eu tinha opinião formada, era crítica e saberia responder e até confundir a quem tentasse fazendo as minhas perguntas.


Porém, pessoas no trabalho seguiam orando por mim. Eu não vou contar todo o processo, tive experiências espirituais que começaram a mudar meu conceito sobre tudo o que cria e descria e me ocorreu ser o momento de estudar a bíblia para ter uma visão a mais. No trabalho havia uma amiga cristã que eu julgava inteligente e me aproximei e pedi que estudássemos juntas, eu não sabia que ela orava para isto acontecer por mais de um ano em segredo. Lemos o livro do profeta Isaías e meu mundo começou a mudar ali.


Em casa tive nova experiência desta vez mais forte, lendo sozinha e me converti ao cristianismo.


Foi tudo muito forte, estava me convertendo por escolha sem motivos de fugas, não era porque estava doente e queria cura, nem porque precisava de dinheiro, eu simplesmente ouvi Deus falar comigo através de Sua Palavra e também pessoalmente. As vezes pensava até que poderia ter ficado maluca.


Tudo na minha vida mudou a partir dali. TUDO. Começou uma nova história, Deus começou a trabalhar primeiramente na minha alma, que necessitava de cura, Deus se mostrou meu pai, meu amigo, meu doutor, ele me preparou para ter que chorar muito, porque ser confrontado pela verdade dói, para experimentarmos mudança entramos por um processo que precisa ser de dentro para fora e só ele sabe o percurso que precisamos trilhar para chegarmos do outro lado.


Sou cristã há mais de dez anos, ainda leio sobre outras religiões, conhecimento nunca é demais, mas sem dúvida, nada para mim é melhor do que a bíblia sagrada, nenhum livro possui o mesmo poder tão transformador e tão fantástico. O mundo espiritual se abre poderosa e inexplicavelmente através da bíblia, este livro aparentemente tão insignificante e absurdo, é repleto de mistérios, segredos e revelações.

About rikaferreira

Carioca, 34 anos, blogueira, chocólatra, amo café, adoro comida simples, tentando ser o mais kosher ou vegana possível. Amo animais e natureza. Cristã. Filosofia é um prazer, assim como qualquer leitura. Sou crítica, sou curiosa. Não tenho time. Não curto rótulos. Não sigo partido político. Centro-direita, as vezes centro-esquerda. Gosto muito de conhecer histórias de vida e admirar talentos. Amo música, prefiro Clássica, Bossa Nova, Jazz, Blues, Choro, Flamenco. E não sou rica, só rica de alegria, de experiências e da Graça de Deus.
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6 Responses to Testemunho

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  2. Maravilhoso testemunho!

    Que o Senhor fortaleça seus passos no Caminho. Breve Ele vem e estaremos eternamente em Paz e Alegria.

    Maran Atá!

  3. Rika, quando Deus escolhe uma pessoa cria mil situações para tê-la de volta. É a sua ovelha perdida. Muitos são chamados e não percebem. Você foi inteligente e percebeu.
    Deus a abençoe. Estarei orando por você e sua família sempre.
    Um abraço carinhoso,
    Manoel

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